Prefeitos da região cometem fraudes dignas de novela

Da Gazeta do Povo

Uso de veículos oficiais para visitas à manicure e a bares, placas com iniciais visando à promoção pessoal, nomeações para cargos “fantasmas”, acomodação de parentes em cargos públicos e até excursões ao Paraguai em micro-ônibus pertencentes à frota escolar. O que pode parecer inicialmente ações dignas do personagem Odorico Paraguaçu, um político corrupto e cheio de artimanhas, interpretado por Paulo Gracindo na novela O Bem Amado, de Dias Gomes, são cenas reais protagonizadas por prefeitos do interior do Paraná.

Um exemplo de ação que lembra o folclórico prefeito da fictícia Sucupira é um decreto assinado no ano passado pelo prefeito de Pitanga, na Região Centro Sul do estado. No documento, a mulher do presidente da Câmara de Vereadores da cidade foi nomeada diretora de um hospital municipal. Detalhe: o hospital não existe.

O prefeito da cidade, Altair Zampier, disse que não havia dinheiro para aparelhar o hospital, que foi transformado em um “centro de medicina alternativa”. “Nós nomeamos ela para este cargo por considerar que o hospital iria funcionar. Ela trabalha e é uma profissional séria e comprometida”, disse o prefeito.

Em Prudentópolis, o prefeito Gilvan Pizzano Agibert responde a processo pelo uso do veículo oficial para freqüentar bares na cidade. Ele foi flagrado por diversas veze utilizando o veículo oficial para “visitar amigos” em um bar. O caso mais recente aconteceu em dia de ato oficial, onde ele justificou “problemas de saúde para não comparecer ao ato, mas foi flagrado jogando baralho num bar da cidade com o carro oficial, que ficou estacionado em frente ao estabelecimento.

MP investiga iniciais em placas

O Ministério Público estadual investiga pelo menos outros três municípios paranaenses por emplacamento irregular. Nove veículos da prefeitura de Marilena (a 140 km de Maringá) foram emplacados com as letras AZP, que, para o MP, significam “administração Zé do Peixe”, em referência ao prefeito, José Aparecido da Silva. A placa também tem o número 11, do PP, partido dele.

Denúncias envolvem ainda a prefeitura de Candói, no Centro-Sul do estado. Oito veículos foram emplacados com os números 4545, com a dezena utilizada pelo PSDB, partido do prefeito Elias Farah Neto. Em Foz do Jordão, o prefeito Anildo Alves da Silva, filiado ao PMDB, está sendo investigado por emplacar os veículos oficiais com as iniciais do nome e a sequência 1515.

Herança

“A política do Paraná é retrógrada e ainda vinculada ao coronelismo. Mesmo em centros maiores, o estilo monopolizador e autoritário de Aníbal Khury [ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado, morto em 1999] está presente”, analisa o cientista político e professor da PUCPR Mario Sergio Lepre. Para ele, essa cultura é ainda mais forte no interior do estado. “Essa cultura toma dimensões ainda maiores e os ocupantes de cargos se consideram como pessoas diferenciadas que podem fazer o que bem entenderem com o bem público, sem dar satisfações. E o que é pior: a população desses municípios é conivente com os absurdos. Por ser amigo do prefeito e ter acesso a ele pessoalmente, solicitando favores, o cidadão esquece os desvios e participa de um relacionamento nefasto e pernicioso”, analisa.

Para Lepre, os desmandos administrativos no interior do estado refletem as ações negativas dos políticos de Brasília. “Eles tomam como exemplo a carreira de José Sarney. Acusado de inúmeras mazelas no trato com a coisa publica, ele continua no comando. Este é o espelho”.

O professor avalia que nos pequenos municípios a ação paternalista e assistencial está enraizada na cultura paranaense. “O setor público é ineficiente e para conseguir algo, o cidadão tem que ter certo compadrio com o prefeito. Essa relação o torna ‘amigo’ do ocupante do cargo público e ele acaba fechando os olhos para a má gestão”. Lepre destaca ainda que o acesso à cidadania, com seus direitos e deveres, ainda não chegou ao interior. “Situações como essas de Pitanga e Farol parecem irreais e até cômicas. Em grandes centros, com a vigilância da sociedade, da imprensa e dos observatórios sociais que começam a surgir em cidades de médio porte, isso dificilmente ocorreria sem que houvesse a manifestação popular.” Ele cita como exemplo a repercussão da série Diários Secretos, produzida pela Gazeta do Povo e RPCTV. “A imprensa e a sociedade estavam atentas e o material trouxe uma nova mentalidade no modelo de gestão da Assembleia Legislativa”.

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