Talismã do Verdão, Mazinho revela segredo da velocidade: lava-rápido

Do G1

Foto: Lance Net

O talismã que ajudou o Palmeiras a conquistar a Copa do Brasil quase passou longe de uma carreira como jogador de futebol. O meia-atacante Mazinho, hoje consolidado na equipe de Luiz Felipe Scolari, só virou profissional porque largou da noite para o dia o seu antigo emprego na pequena Fênix, cidade de 5 mil habitantes no interior do Paraná. Mas foi o ofício praticado lá que lhe ensinou a ser veloz, habilidoso e, principalmente, bem-humorado: ele lavou carros em um posto de gasolina da cidade durante dois anos, dos 15 aos 17.

A convite do GLOBOESPORTE.COM, Mazinho voltou às suas raízes e mostrou um pouco do que fazia antes de ser convidado para um teste no Oeste de Itápolis, há sete anos, quando nem avisou o chefe e partiu para longe de Fênix. Em um lava-rápido na zona oeste de São Paulo, bastante movimentado em uma tarde ensolarada de sexta-feira, o palmeirense vestiu uniforme, pegou pano, balde, e reviveu os velhos tempos.

A rotina era até certo ponto simples: uma passada de água inicial com a mangueira, a espuma do produto de limpeza, a passada de pano e um novo banho de água. Para completar o serviço em um carro, incluindo a limpeza interna do painel e dos bancos, Mazinho levou cerca de 30 minutos, sem a prática de antigamente. Até o dono do lava-rápido cornetou:

– Está encerando o carro com muita delicadeza, não é assim. Hoje, esse aí só sabe jogar bola.

Mesmo assim, Mazinho garante que levou muito menos tempo do que em Fênix, onde fazia tudo sozinho e era conhecido por outro apelido.

– Lá eu era o “Ticinha”. Todo mundo lá no posto entrava com o carro e já me chamava. “Dá um talento no carro aí, Ticinha”. Era legal, mas hoje não sinto a menor saudade. Dava mais trabalho do que jogar, eu lavava bem. Correr em campo é muito mais tranquilo, acho que o emprego antigo até me ajudou – relembrou Mazinho.

E como dá trabalho… No interior do Paraná, o xodó do Palmeiras lavava até 20 carros por semana, por dentro e por fora, no capricho. O salário mensal era de cerca de R$ 250, fora as gorjetas que os motoristas lhe davam pelo trato bem dado em seus veículos. Faltava tempo para o futebol. Mazinho jogava só aos finais de semana em uma equipe amadora de Fênix, mas já se destacava pela velocidade e habilidade em campo. Para quem gastava energia a semana inteira com os carros, jogar bola era moleza.

– O carro chegava, eu tirava os tapetes, enxaguava por fora, passava um produto na lataria, nos pneus… Era bem mais difícil. Hoje esse lava-rápido te dá tudo na mão, cada um faz uma função. Eu trabalhava das 9h às 18h, só sobrava o fim de semana para jogar. Mas deu para me destacar – disse.

O futebol não lhe dava dinheiro algum. Por isso, o jeito era ajudar a família com o pouco que ganhava lavando carros. Dava para reforçar a cozinha com um pacote de arroz, um feijão, e outros alimentos de primeira necessidade. Na época, a ex-mulher estava grávida do filho que hoje tem sete anos. Uma vida sem luxos, que ficava com mais graça quando um cliente com maior poder aquisitivo aparecia.

– Aí era bom, a gorjeta era alta, e quando eu levava o carro da pessoa até a casa dela eu ainda dava umas voltinhas pela cidade para tirar onda. Aí eu tinha o gostinho de dirigir um carro bom. Peguei gosto pela coisa. Felizmente, hoje posso ter o mesmo carro que aquele cara lavou comigo. E hoje meu filho tem uma vida bem melhor – afirmou Mazinho.

A virada veio com o convite de um amigo chamado Mirandinha, que já jogava profissionalmente e chamou o “Ticinha” e mais dois amigos para um teste no Oeste de Itápolis, clube em que atuava. Ele nem pensou, e logo largou o trabalho. No dia seguinte, quando seu chefe foi procurá-lo na casa da família, a mãe avisou: Mazinho já estava longe, buscando o sonho de ser jogador profissional.

O meia-atacante passou no teste e nunca mais voltou para o lava-rápido do posto de gasolina. Pelo menos não para trabalhar. Ficou sete anos no Oeste, entre boas passagens e empréstimos para outras equipes. Depois de um gol contra o Palmeiras, no Campeonato Paulista deste ano, chamou a atenção dos dirigentes alviverdes e de Felipão. Foi contratado no ato, ao lado do lateral-esquerdo Fernandinho, e está prestes a renovar seu vínculo por mais quatro anos.

Uma evolução e tanto para quem achava que nunca iria sair da minúscula Fênix. Hoje, quando volta para sua cidade natal, é ele quem manda lavar o carro.

– Ah, hoje é só alegria. Quando vou para lá nas férias, deixo meu carro e ele sai limpinho. Não toco mais nesse negócio de pano, água, é tudo coisa do passado. E eu sou um ótimo cliente, dou caixinha para todos os lavadores. Sei que é importante para eles – ressaltou o jogador.

De “Ticinha” a Mazinho, o meia passou por dificuldades e agora realiza um sonho de criança, de jogar em uma equipe grande do Brasil. O próximo passo é grande: o Barcelona, do Messi que lhe inspira e lhe dá outro apelido, o de “Messi Black”. Mas para isso, é preciso treinar. Depois de mais de uma hora no lava-rápido, entre a limpeza do carro e as fotos com fãs, Mazinho tirou o uniforme, colocou sua roupa e deixou o local às pressas, já atrasado para o treino da tarde.

– Melhor ir logo, senão ganho castigo do Felipão. Vai que ele me manda lavar o carro dele? (risos).

 

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