Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) com Mariceli Bernini

Mariceli BerniniO Transtorno do Déficit de Atenção é uma disfunção neurológica cujos sintomas principais são: distração; impulsividade; desorganização; falta de atenção; dificuldade de aprender com os erros passados; dificuldade de planejar coisas; dificuldade de ter um olhar voltado para si mesmo; e em alguns casos, indivíduos com Transtorno do Déficit de Atenção podem também ser hiperativos. A Hiperatividade também é um distúrbio neurológico que se caracteriza como um aumento da atividade motora, são aquelas pessoas que não páram quietas.

Você já deve ter se deparado com crianças que não conseguem parar quietas, estão o tempo todo “aprontando”, como se estivessem “ligadas na tomada”. Muitas vezes essas crianças parecem não ouvir quando são chamadas, e quando ouvem parecem ter muita dificuldade em se organizar para fazer o que lhes é pedido. Frequentemente têm dificuldade em aguardar a sua vez nas atividades, interrompem os outros, mudam de assunto de forma recorrente e agem impulsivamente, chegando a apresentar comportamentos agressivos. Na escola essas crianças apresentam dificuldade de aprendizado, de relacionamento com os amigos e os professores. Essas inadequações os levam a repetir de ano, à expulsões ou até mesmo a abandonar a escola. Isso cria sentimentos de menos valia e baixa autoestima. Assim é uma criança que apresenta o TDAH.

Não são somente as crianças que podem apresentar o TDAH, os adolescentes e os adultos também apresentam, pois os sintomas tem início na vida infantil, e como não existe cura, apenas tratamento, eles vão se manifestando ao longo de toda a vida, em maior ou menor grau, dependendo do tratamento.

A seguir alguns dos exemplos de como a TDAH se manifesta no indivíduo adulto: são aquelas pessoas que não tem paciência em esperar alguém terminar de falar e interrompe; são pessoas que não páram em nenhum emprego; que ao invés de pensar para falar, falam para depois pensar; são pessoas que se dizem “francas”, mas que acabam falando a primeira coisa que lhes vem à cabeça e que acabam magoando outras pessoas e criando muitas dificuldades de relacionamentos. São adultos inquietos internamente, tem dificuldade em sair de férias, desatentos em relação aos cuidados básicos de sua vida e da vida de quem os rodeia, predomina a desatenção nas atividades cotidianas, são inúmeros os sintomas desse transtorno.

Por se tratar de um distúrbio neurológico existem diferenças cerebrais entre pessoas que possuem e as que não possuem este distúrbio: quando uma pessoa se concentra em alguma coisa, e ela não sofre do Transtorno do Déficit de Atenção, uma parte do cérebro dela (que se chama córtex pré-frontal, a parte da frente do cérebro), entra em atividade e manda sinais inibitórios para outras áreas do cérebro, sossegando os dados advindos do meio, de modo que a pessoa possa se concentrar. Por exemplo: quando estamos concentrados numa leitura e lá fora está fazendo um barulho o córtex pré-frontal entra em atividade e as outras partes do cérebro entram em não atividade, para que o barulho lá fora não nos incomode e para que possamos nos concentrar só na leitura. É como se as outras partes do cérebro que nos fizesse perder a atenção na leitura, e prestar atenção num barulho lá fora estivesse “desligada”.

Mas no cérebro das pessoas que apresentam Transtorno do Déficit de Atenção o funcionamento não é o mesmo, ou seja, quanto mais a pessoa tenta prestar atenção ou se concentrar em algo, mais a parte do cérebro que é responsável por manter a atenção dela é desligada. Então, quanto mais ela tenta se concentrar, mais desconcentrada ela fica. Por isso se diz que o Transtorno do Déficit de Atenção é um distúrbio neurológico, pois não é questão de preguiça, como algumas pessoas ou até mesmo os professores pensam, e sim uma questão neurológica. Não é a pessoa que não se esforça, que não quer prestar atenção, é o cérebro dela que impede que ela se concentre em alguma coisa, por isso a pessoa fica desatenta, distraída.

Quanto mais os pais, os professores, os amigos, os patrões ou a família chamam a atenção do indivíduo e quanto mais ele se sente pressionado para fazer a coisa certa, para prestar atenção, mais o cérebro é desestimulado, desligado.

Pessoas que sofrem do Transtorno do Déficit de Atenção têm dificuldade de manter a atenção durante períodos de tempo prolongados. Sua atenção tende a vagar e freqüentemente se desligam da tarefa, pensando ou fazendo coisas diferentes da tarefa a ser realizada. Por exemplo, quando uma criança que sofre do transtorno está com dificuldade de fazer o dever de casa e é repreendida ou pressionada a fazer a lição de casa com atenção e rapidamente, mais ela se tornará distante da atividade que tem a ser realizada e mais se mostrará desatenta e desligada, pois seu cérebro “desliga” mediante a pressão.

Freqüentemente, pessoas que sofrem de Transtorno do Déficit de Atenção conseguem prestar muita atenção em coisas que são bonitas, mas novidades, coisas altamente estimulantes, interessantes ou assustadoras, pois são coisas que estimulam suficientemente o córtex cerebral.  Portanto, pessoas com este transtorno precisam ser estimuladas sempre.

No caso da hiperatividade, o indivíduo que sofre deste transtorno está sempre procurando alguma coisa para fazer, nunca pára quieto, ou seja, está sempre fazendo alguma coisa. A hiperatividade é o aumento da atividade motora, por isso a pessoa é inquieta.

Os adultos não apresentam hiperatividade do mesmo modo como na criança. Os adultos, em geral, têm excesso de atividades ou trabalhos, são pessoas impulsivas, diferentemente das crianças que são hiperativas, elas manifestam uma agitação tendo muita dificuldade de permanecer sentadas, são crianças que conversam durante a aula toda, chegando mesmo a não permanecer sentadas nem para comer, parece que tem um motor ligado nela.

Normalmente o diagnóstico é feito ainda em tenra idade e também em idade escolar, pois os pais observam que há algo de diferente com o filho ou a professora observa que a criança está com dificuldade de aprendizado, não por problemas intelectuais ou cognitivos, mas pela desatenção. A criança pode ser muito inteligente, mas desatenta, por isso não aprende.

No caso dos adultos, são comuns os problemas que vivenciam por causa das decisões mal pensadas ligados à impulsividade; muitas pessoas que sofrem de hiperatividade querem uma solução imediata para os problemas e acabam agindo sem pensar devido à impulsividade e à falta de pensar antes de agir, dizendo a primeira coisa que vem à mente. E, em vez de pedir desculpas por terem dito uma coisa que magoou, muitas tentam justificar por que fizeram o que magoou, só piorando as coisas. E são adultos que se sobrecarregam com atividades e por conta do excesso de coisas que arrumam para fazer se desorganizam.

É importante deixar claro que não é pelo fato de uma pessoa apresentar alguns sintomas do TDAH que possui o transtorno. Talvez sejam indivíduos que foram educados para se comportarem assim. Não tiveram ou não tem educação ou limites e isto nada tem a ver com o TDAH. Mas há casos que não se trata apenas de falta de educação e limites, e sim de um problema neurológico.

Às vezes a criança ou o indivíduo adulto estão desatentos ou agitados porque podem estar deprimidos ou estressados, ou mesmo como sendo o efeito colateral de algum medicamento ou problemas na glândula tireóide. Por isso, um bom profissional saberá diagnosticar o que está acontecendo. Nem toda agitação ou desatenção é sintoma de Hiperatividade ou Transtorno do Déficit de Atenção.

Qual o tratamento para Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade?

Para que haja um tratamento é fundamental o diagnóstico correto. Não existe um exame clínico ou teste psicológico que permita fazer o diagnóstico desses transtornos. Sendo assim, o profissional chega ao diagnóstico colhendo informações da história de vida do indivíduo.

No caso das crianças, com a ajuda dos pais e professores e através da observação do comportamento da criança no consultório do profissional. E no caso dos adultos, com a ajuda da família e dele mesmo.

Geralmente os profissionais envolvidos no diagnóstico são: os professores, os psicólogos, os psicopedagogos, os fonoaudiólogos e os neurologistas.

É importante ressaltar que o diagnóstico não deve ser realizado em apenas uma consulta, não é simplesmente observando o comportamento da criança por alguns momentos que se realiza um diagnóstico. O ser humano é complexo. Nem mesmo um profissional experiente deve diagnosticar uma criança, e muito menos medicá-la em apenas uma consulta. Muitas vezes é necessária a ajuda de uma equipe multiprofissional.

A partir do momento em que se tem o diagnóstico, o tratamento se dá da seguinte maneira: são feitas intervenções psicoeducacionais com o paciente, com a família, e com a escola. Intervenções psicoterapêuticas,  psicopedagógicas, e reabilitação neuropsicológica. E as intervenções psicofarmacológias.

Por isso é fundamental que a família, a escola e os profissionais aprendam sobre o assunto para auxiliar a criança ou o adulto que está sofrendo do transtorno sejam diagnosticadaos e tratados de maneira correta. Não adianta a família achar que levando a criança para o neurologista e dando um remedinho pra ela tudo se resolve, tem-se visto uma multidão de crianças medicadas e não tendo acompanhamento psicológico e nem intervenção psicoeducacional, sendo assim, a criança passa a dar menos trabalho para a professora, pois está abarrotada de medicamento, e o único trabalho que os pais tem é o de comprar e oferecer o medicamento à criança. Desta maneira, a longo prazo, cria-se um problema para a criança que se tornará adulta e dependente de medicação sem que o problema tenha diminuído consideravelmente por conta de um tratamento correto.

Obviamente a medicação faz parte do tratamento, mas não é 100% dele. O tratamento envolve muitas pessoas, e quanto mais se conhece um problema, maiores são as chances de administrá-lo.

Mariceli Bernini é psicóloga formada pela Universidade Estadual de Londrina e possui Consultório de Psicologia em São João do Ivaí.

 

 

 

 

 

 

 

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12 Comments

  1. Meu namorado apresenta vários sintomas. A impulsividade e falta de atenção dele estão me deixando louca e acabando com nosso namoro. Não sei oq faço para ajudá-lo, pois ele não aceita que precise de um acompanhamento médico, ou mesmo uma consulta para um diagnóstico. Como posso agir para não piorar as coisas. Oq posso fazer para convencê-lo a procurar ajuda? Desde já agradeço

  2. muito bom , tenho uma filha os professores pediram que consultasse um neuro medicarão ela, porem quando acabava medicamento ela não queria ir a escola aquele dia por não estar com medicamento chorava ate mesmo resolvi fazer seguinte tirei medicamento dela e conversei dizendo que não é medicamento que vai fazer ela aprender e sim ela mesma que é menina inteligente e capaz , mas gostaria de uma ajuda psicologa se puder me ajudar por gentieza diga onde fica seu escritorio para fazer uma consulta

    • Olá Alex,
      É bastante comum a situação que você descreveu estar vivenciando com tua filha, pois muitas vezes até mesmo as escolas desconhecem o tratamento correto para este transtorno e entende que somente a medicação basta.
      É muito importante levarmos em consideração o que a criança sabe e compreende sobre o fato de estar tomando um remédio, para que isso não seja um problema para ela no sentindo de que ela venha a se sentir diferente dos coleguinhas ou mesmo inferior a eles.
      Também é muito importante eu dizer que em alguns casos o medicamento é fundamental para o tratamento, mas é como eu disse no texto, ele não deve e não pode ser a única fonte de apoio, pois se o remédio acaba, como fica?
      Quem convive com o transtorno deve criar estratégias para aprender a lidar com ele, e isso o medicamento não cria para quem dele faz uso. Mas repito que em alguns casos a medicação é importantíssima.
      Caso você perceba que sua filha necessita de auxílio psicológico, procure um psicólogo.
      Sempre que procurar um profissional, busca aqueles que são indicados por alguém que você conhece, alguém que já se consultou com o profissional e tem boas referências dele para lhe dar, assim estará seguro de entregar a saúde de quem você ama nas mãos de profissionais competentes.
      Meu consultório fica na Avenida São João, 149. Contacte-me pelo telefone 9610 5730.
      Um abraço.

      • agradeço muito pela sua resposta,vou sim creio que uma psicologa pode ajudar a resolver problema pois como voce disse e dificil de interpretar corretamente problema somente proficioal na area poderia informar o correto problema ,mas o que me deixa preocupado e como não consegueram descobrir que minha filha tinha 4 graus de miopia e 4 de estgmatise no mesmo olho ,somente apos minha irmã fazer um estagio na sala dela percebeu que ela não conseguia copiar nada do quadro ,com isso ela passava a ir nas carteiras dos coleguinhas e tambem ,ela so permaneceu um dia fazendo estagio na sala de minha filha e dia seguinte mudarão ela de sala sem motivo ? mas comprimento voce por este trabalho espetacular obrigado

  3. (Freqüentemente, pessoas que sofrem de Transtorno do Déficit de Atenção conseguem prestar muita atenção em coisas que são bonitas, mas novidades, coisas altamente estimulantes, interessantes)

    acho que é por isso que consegui ler este texto e compreender….

    parabéns continue assim…

    • Olá Cauãn,
      Obrigada. A opinião dos leitores é muito importante para mim.
      Você pode sugerir temas, criticar, perguntar, enfim, a intenção dos donos do Blog e também a minha é a de levar a informação até a sociedade e contribuir para que haja melhorias na qualidade de vida.
      Espero que o texto tenha auxiliado em algo.
      Um abraço.

  4. Faço-te um elogio honesto e sincero, EXCELENTE texto, fruto de uma profissional talentosa.

    AUM NAMAH SHIVAYA

    • Diego, obrigada!
      Freud, o pai da Psicanálise, disse certa vez que uma pessoa se sente muito forte quando está segura de ser amada. Portanto, o teu amor é uma força que me impulsiona e incentiva também profissionalmente.
      Beijo!

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