Mariceli Bernini: Como Lindar com a Morte de entes queridos

Mariceli BerniniAo passar pela situação de perder um ente querido o ser humano normalmente é tomado por muitos novos sentimentos e muitas reflexões. Estes sentimentos e reflexões variam muito entre as pessoas, e também variam muito entre diferentes momentos da vida de uma mesma pessoa, tais como:

  • Idade
  • Saúde
  • Se foi repentina a perda
  • Cultura
  • Crenças religiosas
  • Segurança financeira
  • Vida social
  • Antecedente de outras perdas ou eventos traumáticos.

Cada um dos fatores acima pode aumentar ou diminuir a dor e o sofrimento que a morte de alguém que amamos nos causa. O processo pelo qual uma pessoa passa após a perda por morte de alguém que se ama é chamado luto. O luto necessita de algum tempo para ser resolvido e não deve ser apressado. Nas horas e dias seguintes à morte de alguém que se ama, a maioria das pessoas passa por uma fase de descrença, ficando totalmente “atordoada”, como se não pudesse acreditar no acontecido e mesmo quando a morte era esperada esta sensação pode surgir.

Ver o corpo da pessoa falecida pode, para alguns, ser um modo importante de começar a ultrapassar tudo isto. O velório e o enterro podem ser situações onde a realidade começa a ser encarada e isto, apesar de muito difícil, auxilia a lidar com a situação, o fato é que vivenciar estes momentos constitui um modo de dizer adeus àqueles que amamos. Velório, enterro e todas as situações que estão associadas aos primeiros momentos da morte de alguém podem parecer demasiado dolorosos para que sejam vividos, mas o fato é que fugir aos mesmos pode levar a um arrependimento tardio. Ou seja, por mais doloroso que seja encarar esta realidade, é justamente a dor que a realidade dos acontecimentos mostra que dá início à formação da aceitação e compreensão.

CRIANÇAS:

Apesar das crianças não conseguirem compreender o conceito de morte até cerca dos seus três ou quatro anos, elas sentem a perda de alguém próximo da mesma forma que os adultos. É absolutamente certo que também na infância os sentimentos de angústia e o processo de luto são fortes. No entanto, as crianças têm uma noção de tempo diferente da dos adultos e o processo de luto poderá “passar” muito rapidamente. Nos seus primeiros anos de escola, as crianças poderão sentir-se responsáveis pela morte ocorrida na sua família e deverão ser asseguradas de que a culpa sentida é infundada. As crianças poderão não falar do sucedido por temerem estar a piorando ainda mais a situação e por não quererem fazer sofrer os restantes, mas tanto com as crianças como com os adolescentes, nunca se deve evitar o assunto ou colocá-las à parte. Por isso, também eles devem participar do funeral e de todo o processo.

Alguns adultos que convivem com a criança normalmente dizem a ela que a pessoa falecida foi viajar ou que virou uma estrelinha. Não é uma forma emocional saudável de contar à criança sobre a morte, pois além de não ser uma história verdadeira, a criança pode criar a expectativa de que a pessoa falecida retornará em algum momento. Seria interessante contar à criança a verdade em uma linguagem cuidadosamente amorosa e adequada à sua idade para que ela crie mecanismos psicológicos de aceitar e compreender o ocorrido.

AQUELES QUE FICAM “PRESOS” AO LUTO:

Há pessoas que parecem não passar pelo processo de luto, não choram no funeral, evitam falar da pessoa que perderam e que voltam à sua vida “normal” rapidamente. Esta é a sua forma normal de lidar com a perda sem consequências negativas, mas outras pessoas poderão, ao contrário, sofrer sintomas físicos e passar por episódios repetidos de depressão nos anos seguintes. Algumas pessoas podem não ter a oportunidade de passar pelo processo de luto da melhor forma, uma vez que têm de continuar a sua vida profissional ou familiar, não tendo oportunidade ou mesmo o direito de o fazer. Isso não quer dizer que a pessoa não está sofrendo, mas significa que muitas vezes, em alguns momentos da vida, as pessoas precisam manifestar uma força que elas mesmas desconheciam possuir.

Algumas pessoas podem iniciar o processo de luto mas permanecer no mesmo sem o resolver. Nestes casos, a dor e a angústia por quem se perdeu mantêm-se e podem mesmo passar anos sem que a situação seja realmente resolvida. A pessoa pode continuar a não aceitar que perdeu quem faleceu, mantendo-se na fase de descrença já referida  ou, por outro lado, só conseguir pensar em tal pessoa, mantendo, por exemplo, o quarto da pessoa falecida intacto, como uma espécie de local de lembranças vivas. Nota-se que quando o processo de luto é resolvido o quarto é desmanchado, pois houve um processo psicológico interno de elaboração de sentimentos e as lembranças não necessitam mais estar contidas em objetos.

Tentar negar o sofrimento ou evitá-lo parece apenas criar mais problemas graves no futuro. Para atravessar o processo de luto de maneira saudável, é melhor entender o que é conviver com a perda.

Antes de uma pessoa em luto sentir que sua dor está amenizada ou extinta, ela geralmente passa por  4 fases:

1 –   Choque – A pessoa se sente atordoada ou adormecida;

2 –   Negação – A pessoa fica em estado de incredulidade, se faz perguntas do tipo: “porque isto aconteceu?” ou “porque eu não evitei isto?”. Procura maneiras de manter a pessoa amada ou a perda consigo (exemplo do quarto intacto da pessoa falecida); tem dificuldades de começar a sentir a realidade do ocorrido;

3 – Sofrimento e desorganização – A pessoa tem sentimentos como culpa, depressão, ansiedade, solidão, medo, hostilidade. Pode culpar qualquer um ou qualquer coisa pelo ocorrido, incluindo a si mesma. Pode apresentar sintomas físicos como dor de cabeça, dor de estômago, cansaço constante e falta de ar, ou afasta-se dos contatos sociais e da sua rotina.

4 – Depressão – etapa em que a pessoa já teve alguma tomada de consciência do que aconteceu e por isso, sente-se frequentemente triste, chora intensamente, não tem prazer nas atividades, pensa recorrentemente acerca da morte e no ente falecido, isola-se. Estes sintomas, se forem muito intensos e persistirem no tempo, podem ser indicativos de um possível estado depressivo.

Culpa – é um sentimento muito comum. As pessoas começam a pensar em tudo o que poderiam ter dito ou feito para impedir essa morte. Por outro lado, a culpa também pode surgir em consequência do alívio pela morte de alguém que era muito querido mas que estava a sofrer. Por exemplo, morte de uma pessoa com uma doença terminal que estava num estado de sofrimento intenso.

Ansiedade – está associada a um período de agitação e ânsia pelo que foi perdido. O sujeito muitas vezes deseja encontrar a pessoa falecida, e por isso não consegue relaxar.

Agressividade – em alguns casos, o indivíduo revolta-se contra a perda, isto é, sente-se muito zangado e irritado por estar a viver aquela situação. Este sentimento pode ser voltado para si mesmo ou para os outros (por exemplo, para os médicos que não conseguiram salvar a pessoa amada, para Deus ou para amigos ou outras pessoas significativas) Reintegração – é geralmente a última etapa do processo, na qual a pessoa volta à “vida normal”.

Embora a morte seja um tema complexo e por isso mesmo envolve questões muito pessoais e íntimas, é importante não negar os sentimentos, fingir que está tudo bem só vai aumentar a dor. Não pular etapas e, se necessário, procurar ajuda de um profissional são atitudes que auxiliam na formação da compreensão e aceitação da realidade.

 

 

 

 

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14 Comments

  1. Um tema pouco aceito, como psicóloga deveria saber que seria mais que difícil. pensamentos desta maneira não se resumem em textos…

    sugiro que elabora algo tipo, como o nascimento de um bebe revoluciona uma familia, as mudanças, as aceitações dos irmãos menores,, enfim,. fale sobre a vida , as dificuldades quando gêmeos, as dificuldades quando são inexperedos, como se preparam os despreparados… enfim….fale sobre vida…aceita ???

    • Bom dia Magnânimo,
      Obrigada pelo comentário, pela crítica e pela sugestão, são muito bem-vindos!
      Todos os temas publicados foram solicitados ou através do Blog do Roque ou mesmo por pessoas que encontrei na rua. Elaborei o texto com o tema Luto porque uma pessoa me pediu e estava precisando.
      Como psicóloga, o que é difícil me atrai. E você não faz idéia de como a vida de um psicólogo é difícil.
      Entendi teu ponto de vista mas não se trata de um pensamento meu exposto em um texto. Não ofereço opiniões pessoais nos textos, são textos pesquisados de autores profissionais no assunto.
      A intenção principal deste tema não é a de preparar uma pessoa para o luto, pois lidar com a morte é extremamente complexo e envolve questões muito pessoais, mas sim a de sugerir que a pessoa que está passando pelo luto fale, exponha, manifeste, chore, e se permita passar pelos momentos de tristeza sem a obrigação de ter que ser forte o tempo todo, “colocando para fora” seus sentimentos para que possa ser possível que ocorra um processo que na psicologia chamamos de Elaboração ou mesmo a Catarse.
      Entendo que os leitores buscam incentivo e, portanto, queiram coisas alegres, mas para o mérito da liberdade e leveza da vida é necessário cerrar as grades que os prendem à prisão, por isso, algumas vezes é necessário tocar em assuntos “pesados”.
      Mas é claro que aceito sua sugestão e para a semana que vem vou elaborar um texto baseado no que você sugeriu.
      Obrigada, abraço.

      • Bom dia, Mariceli!
        Sim, as críticas são bem vindas sempre. Porém, quero colocar aqui que esse tema, embora difícil de digerir, foi muito útil para mim. Pois me encaixei em pontos colocados e muito bem colocados por você. As vezes entrava em conflito diante de umas das maiores perdas que tive devido a minha reação, reação essa, que quando imaginava em tal situação (perda/luto) me via sem saída. Mas a perda chegou e reagi de forma surpreendente e seu artigo ajudou-me muito a compreender a minha reação ante tal perda. Não devemos fugir desses temas fortes não, afinal, eles são ou serão reais em nossas vidas. Parabéns pelo texto.

        • Oi Marta,
          Quando o dono do Blog me convidou para escrever estes textos, tomei como único objetivo levar informações aos leitores de modo que elas pudessem ser úteis na vida de quem lesse. As críticas são muito importantes para mim, e assim como os elogios, tanto um como outro servem para o mesmo objetivo, me incentivar.
          Quando percebo que os textos estão servindo para auxiliar a vida das pessoas me sinto recompensada. Eu espero de verdade que você consiga superar seu sofrimento, levando em consideração que são necessários tempo e investimento de energia psíquica neste processo.
          Siga o teu caminho com leveza, na certeza de que tudo na vida é passageiro, menos o amor. E é através do amor pelo teu ente querido e também pelo amor que você deve ter por si mesma e pela vida que as circunstâncias te encaminharão a dias serenos, equilibrados e mais felizes.
          Um abraço.

      • Peço desculpas, coloquei de maneira errônia, a parte de que disse (penssamentos) certamente seria (tema).
        Sim , é muito importante,.E sendo que já ajudou a sra..marta..
        Dra: parabéns..

        mas casos alegres e felizes são muito mais fácil e gostoso de comentar…

        • MAGNÃNIMO, vc tem toda razão quando entende que casos felizes e alegres são mais fáceis e gostosos de comentar. Porém a vida não é só de alegrias e momentos felizes. As vezes momentos como esses de perdas chegam em nossas vidas quando menos esperamos e por isso a importância de trabalhar/falar/esclarecer sobre esse assunto (luto). Sem dúvida, para eu foi muito bom ter lido mais sobre isso e os esclarecimentos da Drª Mariceli me ajudaram bastante a conviver com a dor e a perda. Certamente ela nos trará temas alegres e como lidar com eles também.

          ” Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração”. Eclesiastes 7:2

          • Você tem toda razão Marta, porem são situações que todos iremos passar, cada pessoa age de maneira diferente e são poucos que realmente entendem a dor do luto…portanto, sempre digo que a felicidade é a roda da vida e mesmo nos momentos difícil teremos que consolar mais que ser consolado.

            Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.
            Sêneca

        • Magnânimo,
          Não são necessárias as desculpas, compreendi o que você disse e te agradeço pelo apontamento.
          Existem verdades também bastante dolorosas submersas em temas fáceis e aparentemente divertidos…
          É importante o leitor ter o direito de discordar.
          Obrigada, abraço.

  2. Excelente texto. Me identifiquei com algumas etapas citadas. A dor da perda de alguém que amamos é irreparável…Mas aprendemos a conviver, compreender e aceitar tal perda.

    • Oi Marta,
      Para compreendermos e aceitarmos situações que nos causam sofrimento é necessário vivenciarmos a dor, por mais difícil que seja.
      Falar sobre o assunto também é importante para “colocar para fora”, e podemos fazer isso com um familiar, com um amigo ou mesmo um profissional, caso seja necessário. Todas as vezes que falamos sobre um sentimento, emoção ou sensação, eles tendem a se organizarem. Não deveríamos nos fechar em nós mesmos e nos sufocarmos em nossa própria dor.
      Espero que o texto tenha auxiliado você.
      Obrigada pelo seu comentário.
      Um abraço.

  3. Aff… prefiro nem comentar sobre o assunto!
    Mas o texto é real e ajuda a preparar as pessoas para tal sentimento/momento.
    Piór, é saber que não podemos fazer nada, apenas aceitar a dureza da perda.

    Mais uma vez; obrigado Doutora!

    • Olá João,
      Agradeço teu comentário.
      Assunto difícil, né? Mas é importante falarmos sobre ele já que provavelmente em algum momento iremos nos deparar com esta situação. É importante também lembrarmos que temos o direito de manifestar nossa dor, ela também faz parte dos processos da vida. Enquanto não vivenciamos esta situação podemos valorizar mais quem amamos,não é mesmo?
      Um abraço para você.

  4. “Deixe que os mortos enterrem seus mortos” … Leonardo da Vinci dizia: Que o teu trabalho seja perfeito para que, mesmo depois da tua morte, ele permaneça.

    MARICELI PARABÉNS PELO excelente texto, você está trilhando o caminho sugerido por DEUS.

    • Diego,
      Este assunto é bastante complexo, ainda mais por envolver questões como talvez a pior dor que um indivíduo pode sentir: o afastamento de alguém que se ama; e espiritualidade.
      Todos nós, um dia, vamos passar pela experiência de “perder” quem amamos. Mas sabemos que o amor é imortal e todos aqueles que se amam voltam um dia a se reencontrar.
      A idéia que eu quis passar neste texto é a de que as pessoas que já estão passando por esta experiência não escondam seus sentimentos e se permitam vivenciar a tristeza e a dor, pois os sentimentos que ficam sufocados tendem a incomodar mais.
      Um beijo para você e obrigada pelo seu amor.

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