Mariceli Bernini: O Leão que se Tornou um Cordeiro

rp_Mariceli-150x15011.jpgEra uma vez uma leoa enorme, grávida e quase morta de fome. À medida que passavam os dias e o peso do bebê leão aumentava em sua barriga, ficava-lhe cada vez mais difícil movimentar-se para encontrar o que comer. Mesmo quando conseguia cercar alguma presa, a leoa não tinha rapidez o suficiente para dar o salto, e todas as vezes falhava na captura.

Rugindo de tristeza, pesada com o bebezinho leão e debilitada pela fome, a leoa vagou pela floresta até acabar adormecendo à sombra de um grupo de árvores que margeavam uma pastagem. Enquanto dormia, sonhou que via um rebanho de ovelhas pastando. Ao tentar pular sobre uma das ovelhas do sonho, ela se sacudiu, e, acordando, viu um grande rebanho de ovelhas que realmente pastavam nas proximidades.

Tomada pela alegria, esqueceu-se completamente do leãozinho que carregava no ventre e, impelida pela loucura da fome não saciada, pulou sobre um cordeirinho, desaparecendo nas profundezas da floresta. Nem mesmo se deu conta de que, ao fazer um severo esforço para saltar e pegar o cordeiro, tinha dado à luz o seu filhote.

As ovelhas ficaram paralisadas de medo com o ataque, mas quando a leoa partiu e o pânico acabou, elas despertaram do esturpor e notaram a perda do cordeirinho. Enquanto o rebanho balia lamentos no idioma das ovelhas, elas notaram, com grande espanto, o indefeso filhote de leão miando entre elas. Uma das ovelhas mais velhas apiedou-se do leãozinho e adotou-o como seu.

Vários anos se passaram. O leão órfão, agora um animal adulto, com juba espessa e longa cauda, vagava com o rebanho, comportando-se exatamente como um cordeiro, Balindo em vez de rugir, comendo capim em vez de carne esse leão estritamente vegetariano aperfeiçoara-se na fraqueza e na docilidade de uma ovelha.

Acontece que, um dia, outro leão saiu da floresta que se abria para a verde pastagem e, para seu deleite, viu o rebanho das ovelhas. Cheio de alegria e fustigado pela fome, o forte leão perseguiu o rebanho, quando, para seu assombro, notou o robusto leão-cordeiro, com a cauda suspensa no ar, que também fugia em alta velocidade à frente do rebanho.

O leão perseguidor fez uma breve pausa e, balançando a cauda com espanto, refletiu: “Eu posso entender que as ovelhas fujam de mim, mas não consigo imaginar por que um leão robusto também deva fugir. Esse leão fujão me interessa.” Estimulado pela determinação de chegar até o leão que tentava escapar, ele deu uma corrida e pulou sobre a fera. O leão-cordeiro desmaiou de medo. O outro leão ficou mais intrigado do que nunca. Esbofeteando o leão-cordeiro para fazê-lo voltar a si, ele falou em voz áspera:

– Acorde! Que está havendo? Por que você, um irmão leão, foge de mim?

O leão-cordeiro fechou os olhos e baliu na linguagem das ovelhas:

– Por favor, deixe-me ir, Não me mate! Sou apenas um cordeiro daquele rebanho que fugiu e me deixou para trás.

– Ahá Agora vejo por que está balindo – disse o capturador. Refletiu por um momento, e então segurou a juba do leão-cordeiro com suas poderosas mandíbulas e o arrastou até um lago situado no fim da pastagem. Ao chegar à margem do lafo, empurrou a cabeça da iludida criatura acima da água, para que fosse ali refletida, e começou a sacudir o leão-cordeiro com muita força, pois este ainda estava com os olhos bem fechados.

– Mas o que há com você? – perguntou o leão capturador. – Abra os olhos e veja que você não é um cordeiro.

– Bé, bé, bé! Por favor, não me mate. Deixe-me ir embora. Não sou um leão, sou apenas um pobre e manso cordeiro – choramingou e tolo animal. O outro leão, agora zangado, aplicou um safanão em seu prisioneiro. Sob esse impacto, o leão-cordeiro abriu os olhos e ficou admirado ao ver, na água, não o reflexo da cabeça de um cordeiro, como esperava, mas a cabeça de um leão, semelhante ao daquele que agora o sacudia com a pata. Então a enorme criatura disse, na linguagem dos leões:

– Olhe para o meu tosto e para o seu, refletido na água. São idênticos. E minha voz ruge, não bale. Você também deve rugir, em vez de balir.

O leão-cordeiro, agora persuadido, tentou rugir, mas de início só conseguiu produzir rugidos misturados com balidos. Contudo, abaixo das palmadas e exortações do seu novo amigo, finalmente conseguiu rugir de verdade. Então, os dois leões saíram brincado pelos campos. (…)

A história acima ilustra apropriadamente como a maioria de nós, embora sejamos feitos à imagem do Divino Leão do Universo, lembramo-nos apenas de ter nascido e sido criados no rebanho das fraquezas mortais. Assim, balimos de medo diante dos predadores, que são: a doença, a carência, a tristeza e a morte, em vez de rugir com poder e com força da imortalidade, capturando a ignorância e a ilusão mortal.

 

(Extraído do livro: Viva Sem Medo, da autoria de Paramahansa Yogananda).

E você, quando despertará da ilusão de que é um frágil cordeiro e assumirá seu verdadeiro papel diante da vida? Atente para o fato de estar se comportando como um fraco cordeirinho sendo que sua realidade é que você é um real e forte leão.

Mariceli Bernini é psicóloga formada pela Universidade Estadual de Londrina e possui Consultório de Psicologia em São João do Ivaí.

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